Amizades são vínculos fortes os quais os seres humanos tem o privilégio de poder desfrutar. Nem todos os animais são capazes desse feito, incluindo algumas espécies de humanos bem comuns entre nós mortais. Quando Carnegie escreveu seu best seller, não existia internet e a guitarra elétrica mal tinha surgido. Podemos entender que os anos 30 tinham pouca tecnologia. Isso pode paracer estranho pra quem nasceu entre 2000 e 2026, mas até meados de 2012, as pessoas costumavam conversar, sabe, cara a cara. A gente se encontrava na praça da cidade, na lan-house, em uma lanchonete, nas casas uns dos outros, na quadra, em qualquer lugar. A gente se encontrava, se via, se conhecia.
É compreensível que as coisas tenham mudado, isso é inquestionável, vi e vivi a chegada e popularizaçao da internet, dos computadores e dos smartphones, coisas incríveis e que ninguém quer (incluindo eu) que voltemos atrás. Tente se imaginar sem um celular nas mãos pra ver as fofocas mais quentes das subcelebridades e do bbb. Você consegue? Eu não consigo nem pensar em imaginar!
A internet conseguiu tirar o poder das mãos dos oligarcas e permitir que todos possam ter acesso às mesmas informações e ao conhecimento. Cada vez menos, vemos casos de alienígenas visitando a terra, grávidas de taubaté, lobos maus ou fogos fátuos andando no metrô de São Paulo, isso são frutos da internet: podemos verificar essas informações e então entendê-las como verdades ou não. Ao invés de termos apenas aquele grande jornal ou emissora de TV como porta-vozes, hoje qualquer um pode passar uma notícia com a sua própria voz e visão.
Nas linhas escritas por Carnegie, são relatados dezenas de comportamentos, feições e estratégias que são usadas há séculos e, diga-se de passagem, muito bem observadas pelo autor. Coisas tão simples e inerentes ao ser humano que é praticamente imperceptível, até que seja. Quando li Como fazer amigos e influenciar pessoas (Título original: How to make Friends & Influence People) fiquei extasiado. A cada capítulo que se passava, um comportamento novo, diferente... mas igual.
Fazia minha leitura durante o cárdio na academia, então eu podia observar o que se passava ao meu redor enquanto percorria as tantas palavras impressa ali. E era incrível: cada comportamento que ele se referia, acontecia na minha frente. Comecei a notar tudo aquilo e parece que simplesmente estava no segundo andar, olhando as pessoas passarem na calçada sem elas me verem.
Percebi o poder da influência e da observação nesse momento. Percebi como o ser humano é previsível e precisa de atenção. Percebi como, profundamente, o ser humano é egocêntrico e o pior de tudo é que não é de propósito. O próprio autor diz que, já naquela época, as palavras mais ditas em uma conversa, segundo as pesquisas, era "Eu". As pessoas gostam e sentem necessidade de falar de si mesmas, esse é o grande ponto.
Por outro lado tentei me forçar a não inserir "eus" nas minhas conversas e deixar as pessoas falarem de si mesmas e, ainda por cima, encorajá-las a fazê-lo. Talvez essa tenha sido o conceito mais certeiro de todo o livro (Ele também sugere que não reclamemos mais de nada, mas nesse caso eu não durei um dia), isso acabou me trazendo muitas amizades mesmo, pelo menos naquele momento. Mas até onde isso é verdadeiro? Até onde realmente deixar as pessoas falarem de si ininterruptamente, se vangloriar de feitos medíocres é certo? A pergunta é: até onde isso me interessa? Depois de um tempo você começa a perceber que sim, precisamos falar de nós mesmos e vangloriar de nossos feitos medíocres, pois, é isso que temos. É isso que somos.
Apesar da essência do livro ser, não um manual de enganar os outros, mas, de compreensão do próprio ser humano e não ser um livro de auto-ajuda, definitivamente não, ele acaba por ajudar a fazer com que nós consigamos enxergar um pouco mais além da névoa do nosso ego e, assim, podemos entender um pouco melhor como nós mesmos funcionamos por baixo dos panos. O livro te ajuda a exercitar a empatia e a tolerância em um nível diferente, porque agora você entende como as pessoas funcionam.
Mas não, jamais conte a elas sobre este livro senão, ao invés de conquistá-las você as vai espantar. O conhecimento é um veneno nos dias de hoje e o auto-conhecimento tem se tornado algo cada vez mais obscuro e escasso. É mais fácil ser o que se mostra do que ter o que se é. Lembre-se que hoje é praticamente um crime provocar uma dissonância cognitiva em alguém, contradizer as opiniões tão fortes e bem formadas dos jovens idosos guiados por influencers super capacitados que só falam, mostram e agem na realidade de que se importam é, indubitavelmente, um afronte ao que tem de mais inerente ao seu próprio ser: o ego.